terça-feira, 12 de julho de 2011

Caio Fernando Abreu - Pálpebras de Neblina

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: "Não digas 'Eu sofro'. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer ?" Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia - coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban - filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia Tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi. Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega - aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja.
E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar - exposta, imoral, escandalosa - sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia - uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos. Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-privilegiado. Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou "porquê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

(in: Pequenas Epifanias)

Magalhães

J'ai écrit ce poème
Sur le Mur
Juste à derrière notre lit
Et murmure ça ne lis pas le fort
Et quand tu a besoin
Je vais chanter pour toi





Je vais chanter avec âme
Et te regarder au choir sur mon coeur
Si je me voyage
Si je ne suis pas ici
Par sourir pour toi
Ouvrir la fenêtre
Le lit à la lune
Qui je te écouterai
Sur mon coeur
Posso te contar um segredo?



-Coleciono pessoas de alma, e tu?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

“As coisas tem que passar, os dias têm que mudar, os ares têm de ser novos e a vida continua, com ou sem qualquer um.”





“As coisas tem que passar, os dias têm que mudar, os ares têm de ser novos e a vida continua, com ou sem qualquer um.” .






CAIO GURU.
.
Mudando,
preciso
de
mais




ESPAÇO


.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Coincidência-considerada

Faz pouco tempo que estou trabalhando no shopping em uma livraria, perto de casa... E algumas semanas atrás antes de eu saber que poderia retirar um livro em meu trabalho, fiquei pensando se havia algum livro que conta-se a história sobre uma tal garotinha que foi seqüestrada e ficou em um cativeiro por muitos anos. Foi então que no dia seguinte encontrei ele por 'acaso'. Fiquei em dúvida se levaria ele para casa ou optaria por uma leitura menus maçante.

Estava com tanta pressa que não pude pensar, larguei de mão de um romance, e peguei logo aquele livro mesmo. Ele se chama: 3096 Dias Natascha Kampusch. Esse livro conta a história da menina austríaca que foi sequestrada quando tinha dez anos de idade em 1998, permanecendo sob custódia de seu raptor por mais de oito anos, até sua fuga em 23 de agosto de 2006. O caso foi descrito como um dos mais dramáticos da história criminal da Áustria.




Pode-se encontrar mais sobre o assunto no Wikipédia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Natascha_Kampusch ou pela internet


Pode se apavorar quem olha a perícia do cativeiro em que Kampusch passou seus oito intensos anos de muito sofrimento e privação de liberdade
http://www.youtube.com/watch?v=uWeUurZ13HA




Ainda não terminei de ler o livro, mais estou quase chegando ao fim. O que fiquei espantada mesmo, foi quando li o capítulo em que fala de seus maus tratos e fome que Natasha tinha passado. Na manhã do dia seguinte acordei com uma hematoma na panturrilha muito roxo...No livro conta que ela levava muitos chutes e ficava com tantos hematomas que mal conseguia achar uma posição adequada para dormir. Parece até engraçado, mais não lembro de eu ter batido em nenhum lugar sequer.

Penso se a alma daquele sequestrador ainda habita a terra. Penso em tudo que aconteceu com a pobre Natascha, nas noites em que ela chorava, a falta dos pais, no mau cheiro do claustofobico cativeiro apertado em que ela passou todo esses longos tempos, na porta de concreto que fechada, logo depois mais um cofre pesado e diversas portas em que ela ficou trancada, pensando que poderia ser enterrada viva se algo acontece-se com o sequestrador, penso nos maus tratos também, e em tantas coisas que a minha cabeça chega dar voltas.

Como seria se ele estivesse ainda vivo? Se ela não estivesse escapado? E se ela fosse realmente enterrada viva? são muitas as perguntas. O fato é que penso toda noite em Natascha antes de dormir, e principalmente em Wolfgang Priklopil, o próprio sequestrador, que me da um certo medo que me faz dormir enrolada ao casulo no cobertor feito a criança como Natascha, na época em que foi sequestrada aos de dez anos de idade, com muito medo quando ia se deitar durante a noite.



-Na maioria dos casos muitas pessoas já teriam desistido. Sei que ela foi forte suficiente para aguentar tudo, e principalmente tentar tranformar aquele seu mundo interior que vivia em um mundo menus cinza possível.
E o meu hematoma dói, mais sei que não chega nem perto da dor que ela sentiu, ou ainda sente.


Creio eu que Priklopil precise de ajuda (...)